Opinião

Sim, é possível

“Que fique claro: não excluiremos os partidos à nossa esquerda da responsabilidade de serem partidos de solução e não apenas partidos de protesto”. Se é certo que o XXI congresso do Partido Socialista terminou hoje, parece claro que a linha orientadora do PS de António Costa se iniciou em 30 de Novembro de 2014, quando Costa defendeu no XX congresso socialista que era tempo de romper com o discurso do “arco da governação”.

O 1º congresso da Geringonça abrange pois dois congressos socialistas. E como a direita anda desorientada! Desorientada com a capacidade, surpreendente, diga-se, que PS, Bloco, Partido Comunista e Verdes têm evidenciado para ultrapassar diferenças e cerrar fileiras! No combate às políticas de empobrecimento, no combate à austeridade punitiva que o PSD de Passos e o CDS de Portas e Cristas parecem endeusar. Hoje Passos, entrincheirado na realidade laranja e amnésico da realidade do país, clamava que o PS está refém do Bloco. Há bem pouco tempo o “dono” do PS eram comunistas e sindicatos.

Já ninguém leva Passos a sério! O desespero face ao sucesso das esquerdas leva a direita a esta incontinência verbal. E este é o melhor sinal de que é possível fazer diferente. Conseguir, num quadro de normalidade constitucional, devolver rendimentos às famílias, dignificar o trabalho, avançar em direitos fundamentais progressistas, diminuir as desigualdades, relançar a economia e estar na primeira linha no debate europeu.

A desconstrução europeia feita por Costa foi elucidativa desse combate. E para isso Costa tem no alemão Schulz um forte aliado. Seria “absurdo”, “injusto” e “imoral” as instituições europeias, depois de “tanto terem elogiado as políticas do anterior governo, pretenderem agora castigar as políticas antes seguidas”. Pediu mais Europa para combater os nacionalismos, avançou com uma proposta baseada nos EUA de “um orçamento justamente partilhado”.

Todos reconhecemos que precisamos de uma Europa não neoliberal, não assimétrica, não um euro de primeira e de segunda, mas sim um euro inclusivo, uma Europa diferente, solidária e de matriz social, porque “fora da UE é impossível ser socialista”.

O discurso do primeiro-ministro defendeu o PS como partido de reformas e não de reversões. Será reversão cumprir a Constituição? Ou apostar numa escola de adultos, ou num novo programa para doutorados que promova a qualificação que o país precisa? O rasgado elogio ao ministro da Educação provocou a maior ovação do congresso! “É por isso que temos um ministro que tem a coragem de enfrentar os ‘lobbies’ e dizer que o dinheiro tem de ser bem gerido e deve ser aplicado onde é necessário.”

Tocou nas autárquicas para deixar em aberto o apoio a Rui Moreira no Porto e assumiu o desafio da descentralização, que inclui a eleição direta das áreas metropolitanas, a indireta dos presidentes das CCDR pelos autarcas e a transferência de competências. Um discurso que marcará a história do primeiro Governo promovido por toda a esquerda e que reforça a opção doutrinária do Partido Socialista de partido responsável, abrangente e europeísta.

Merece, por fim, destaque o novo presidente honorário do PS. Numa frase, Arnaut levantou mais uma vez todos os presentes e resumiu o sentimento que saiu do fim-de-semana: “Vamos pela esquerda, que é o lado do nosso coração”. Sim, é possível.

Publicado originalmente no Diário Económico.

Comments (2)
  1. Jose Silva says:

    Tantos anos que a Esquerda Portuguesa esperou para se unir. Finalmente existem líderes a sério que dão um murro na mesa á Direita e á Comunidade Europeia, lembrando-se que é preciso pôr ordem na casa, não hesitam em fazer o que acham ser o melhor. Temos fé nesses líderes e em nós própios. Sonho com uma mudança de mentalidade coletiva, neste Portugal, que projete as gerações vindouras no futuro.

  2. Efeeme says:

    Oferecer um tacho na Caixa Geral de Depósitos a uma pessoa que foi acusada pela morte de mais de 30 jovens(hemofílicos)que só não foi condenada porque teve ajuda de muitos políticos, alguns que se dizem de esquerda, para que grande parte dos processos prescrevessem , não é de líder(António Costa) e muito menos de esquerda.
    Dizer que ela vai trabalhar pro bono é mais uma brincadeira de uma cavaquista reaccionária
    Não condenar a violação dos direitos humanos e as ditaduras não é de líder(Jerónimo de Sousa) e muito menos de esquerda.

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